quinta-feira, 11 de março de 2010
O rio fica lá, a água é que correu
Me pego pensando em que se eu pudesse voltar a minha infância, algum momento ou algum aspecto dela eu mudaria. Paro e fico pensando isso várias vezes ao dia, talvez seja saudade de poder balançar a bundinha gordinha de nenêm só de shortinho pela casa, poder me lambuzar de ximia de uva, ou começar a comer e nem chegar a metade e dizer “não quero mais”, e logo depois ver a mamãe comendo por mim pra não jogar fora. Pegar na mão da irmã e me jogar no barro sem estar nem ai pras pessoas que ali me rodeiam, tomar aquela mamadeira cheia de nescau e leite, sem imaginar que mais tarde eu não iria mais poder beber leite, e muito menos na mamadeira. Passar por meu irmão e ele nem sequer me olhar, ele não gostava de mim, mas eu passei a não ligar. Naquele tempo, eu podia fugir de casa sem saber pra onde ir que eu não me sentia perdida, gostava de ir na vizinha pedir bolacha sem me sentir uma encomodação. Podia desenhar qualquer coisa no papel da escolinha que todo mundo elogiava, colocava fitas coloridas no cabelo e isso fazia com que papai me mimasse mais ainda. Acordava cedo e não reclamava, nem gostava de ficar em frente da televisão como minha irmã, eu queria era espuletiar, encomodar, falar, perguntar. Gostava de repetir as palavras “afunafunafuna” ou fazer “legal bitchô” com o dedo indicador em vez do dedão que se faz beleza. Chorava, não por birra, nem por dor, mas chorava. Algumas coisas, manias, traços, sentimentos não irão me abandonar muito cedo. A gente cresce e sente vontade de voltar a ser inocente, de não ter problemas, e não se preocupar com nada. Mas esquece de perceber que muitas coisas ainda existem, e dando valor a isso você pode sim trazer a tona a criança que você foi. Eu não sou mais a Sarinha linda que eu era uma vez, mas me tornei a Sara que continua sendo a boba que faz “legal bitchô” e fala “afunafunafuna”, mas com outras palavras. Afinal eu cresci, o vocabulário pelo menos tem que mudar, haha. Eu continuo a criança carente, com brilho nos olhos, e que chora o tempo todo, não por birra, nem por dor, mas que chora. Meu pai não me mima mais, minha mãe continua comendo por mim quando eu falo “não quero mais”. Minha irmã não se joga mais na terra comigo, mas ri comigo, e me dá conSelhos. Meu irmão, talvez, não me odeie mais, agora ele até fala comigo. Hoje se eu penso em fugir de casa eu me sinto perdida, não sei para onde ir, por isso me tranco no quarto ligo o rádio alto e fico por lá, uma hora que canso e saio, e talvez o “dia ruim” já tenha passado. Hoje meus desenhos já não são feitos na escolinha, estão guardados dentro de uma pasta – eu me recuso mostrar pra alguém. Hoje já não tenho vizinhos “interessantes” pra pedir bolacha, se não eu ia na cara dura mesmo, aqui em casa nunca tem... Lembro de que eu falava em ser a Sandy (putaquebosta), e depois pensava em casar, talvez ser professora, ter dois filhos – um casal – e mais tarde se possível adotar algum. Hoje passo longe da Sandy (graçasaDeus), não penso em casar mas não descarto a possibilidade se isso apontar acontecer, mas ainda penso em ter dois filhos – um casal – e na possibilidade adotar mais algum. É estranho começar a pensar a fundo sobre tudo isso, aliás já passaram tantas coisas na minha cabeça. E pensando mais a fundo ainda, já se passaram tantas coisas na minha vida, e uns bons par de anos também. Há tanta coisa por vir, que por mais coisas ruins que passei, por mais mal que já fiz e já me fizeram, eu permaneço com a idéia de que o mundo dá voltas, e há testes na vida pra se passar sejam eles bons ou ruins. Minha infância foi tão boa, mesmo “sozinha”, nunca tive amigos que permanecessem comigo, talvez seja isso que me console por ter passado por tanta gente nessa vida, ter levado tantas rasteiras, e ter sobrado apenas alguns. No começo eu me encomodava, “será que vai ser sempre assim?” mas agora eu agradeço, pessoas mesquinhas e que desvalorizam alguém são só pra se passar longe, são só pra adubar o meu terreno. Algumas pessoas estão longe, outras estão aqui, mas somando tudo não dá 20. Agradeço por isso também, eu não prezo a quantidade, e sim a qualidade. Quero que as pessoas que gostem mesmo de mim, insistam em mim. Tenho manias de desistir fácil das coisas que talvez por alguns motivos – que se tem que passar – acabam não andando. Tenho manias de pessimisto, e de não gostar de mim, de quem eu sou. Manias de achar que não conseguirei ser alguem maior na vida, alguem importante. Mas são essas manias que me criam, são esses defeitos que fazem ser quem eu sou, sem em momento algum descartar as minhas qualidades. Não mudei de nome, nem de endereço, só cresci e esqueci que em mim ainda há aquela criança que contagiava meio mundo. O rio fica lá, a água é que correu, e se a água não tivesse corrido, ela apodreceria ali. É preciso parar de reclamar, e começar a agradecer mais e mais, por ter chegado até aqui, e por ter ao meu lado as melhores pessoas que alguém poderia ter. Cada qual com seus defeitos e qualidades, mas que de alguma maneira me completam, e agradecer pelas pessoas que já passaram pela minha vida, e que jamais voltarão, mesmo se quisessem. Porque se não fossem a sola do sapato deles na minha cara, meu sorriso não seria tão bonito, e nem meus olhos brilhariam, eu não teria pulso firme, e nem ao mesmo tempo seria doce. Eu posso sim, continuar a ser criança sem deixar de crescer e amadurecer, eu só preciso deixar isso fluir. E tenho certeza que quem me conheceu pequena, vai rir se eu chegar e falar “legal bitchô".
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