quarta-feira, 24 de março de 2010
De vez em quando
Estava deitada sobre o tapete no chão, no meio do quarto, quando vi aquele ursinho aparecendo sob um dos pés da cama. Não havia ganhado de ninguém, era meu, comprado. Mas eu sabia, mesmo de longe que ele tinha um cheiro, aquele que me envenena todas as noites antes de dormir, as vezes tira o sono de saudade, as vezes cria laços entre meus braços e eu sinto você ali, logo durmo. Pensando se eu pegaria e me traria perto das narinas pra sentir teu cheiro, resolvi não fazê-lo. Ergui-me do chão e procurei as três caixas, enroladas a papéis azul, amarelo e branco ao lado do armário. Velha, feia e rasgando, mas poderosa em seu interior de segredos e bons momentos. Com cuidado e delicadeza as caixas foram abertas. O interior me cumprimentou como um amigo que não se vê há anos e depois de me dar a mão levou-me numa viagem atemporal até onde cada cheiro, cada olhar, cada palavra dizia quem eu era, explicava como eu havia chegado até aqui, e porque eu era quem eu era agora. Deixei que saísse da caixa os bilhetes, as flores secas, as fotos levemente amareladas bem como as que fazia pouco tempo. Revirei de leve os pertences e encontrei o que procurava. Debaixo de todas as minhas lembranças entre poemas que imprimi do computador e entre cartas e papéis de bala, meio que escondido, havia caderno. Era pequenino que mal cabia as minhas letras enormes em um texto grande em cada folha. Havia tanta coisa escrita nele, lembrei de algumas coisas mas não quis ler. Sei que não me fariam chorar, seria mais fácil rir de tudo aquilo, de quem eu era, do que eu fazia e do que eu não deveria ter feito. Mas não quis ler. Apenas folhava o caderninho, e pegava por cima algumas palavras, datas e fotos. Resolvi começar a mexer na caixa cada vez mais, logo olhei a minha volta e já não se via o piso do meu quarto, estava estampado com papéis, cartas, folhas, flores secas, presentes e partes da minha história, pedaços de mim que ficaram para trás, mostrando como eu cheguei até aqui. Começei a sorrir profundamente, aquele riso contido que só mechia a boca, até as lágrimas cairem. Caíam porque eu sentia que eu havia me livrado completamente daquilo que um dia me sufocava, me fazia ser uma pessoa que eu não queria e nem deveria ser, as lágrimas vinham por agradecimento de eu estar aqui, agora, com quem eu estou, sendo quem sou. Guardo dentro da caixa e no coração todas as coisas boas que já vivi, e já que me fizeram, ninguém nunca passou pela minha vida apenas me magoando sem por algum momento me fazendo rir, e por incrível que pareça na minha caixa há esses momentos, sejam escritos em cadernos ou em papéis de bala que eu lembro tão bem daonde todos vieram. Deixando as cartas de lado, voltei a me sentar no tapete. Ouvindo los hermanos, resolvi pegar o ursinho, logo mais me perguntei porque fiz isso, havia esquecido de trancar a porta, e mesmo sem costume de fazer isso me arrependi por um momento, toda vez que sinto o cheiro, me veem saudade, e logo as lágrimas caem, mas é saudade boa, gostosa de sentir. Sem muita demora a porta abre e minha querida mãe aparece e me vê chorando, cartas por todo lado, revistas coladas na parede, literalmente um lixão da prefeitura, como ela mesmo diz. Parada na porta e assustada me pergunta porque daquilo, eu sem pensar muito respondi “eu só estou feliz mãe”, ela sem entender muito mas vendo a sinceridade no tom da minha voz e no brilho de meus olhos da um sorrisinho, fecha a porta e sai do quarto. Logo me sai um peso das costas, não faço a mínima de que peso seria, e o porque ele estava grudado em mim, mas eu me senti tão leve, sorri novamente, fui ajuntando tudo o que estava no chão e colocando na caixa, e me sentia como se eu tivesse tirado toda a roupa suja e colocado pra lavar. Mesmo tendo certeza de que o passado já estava intacto lá pra trás, eu precisava de uma absoluta. E foi em um pequeno momento de lágrimas e risos, cartas e cadernos, que tive essa certeza absoluta de que eu mudei e muito, que meu passado não foi ruim, já sofri muito, mas que isso só me fez ser quem eu sou agora, e me deu mais coragem pra seguir em frente, vendo que ao contrário de muita gente eu continue andando mesmo com os abismos, com os tropeços e todas aquelas pedras que a vida coloca na vida da gente. Na mesma cidade, no mesmo bairro, na mesma rua, foi aonde eu nasci e to crescendo, é engraçado tudo isso, porque ai a gente vê como é possível acontecer tantas coisas em um mesmo lugar, como podem acontecer tantas mudanças... Eu era aquela menina que nunca se sentia feliz com nada, que nunca tinha tudo o que queria, que sempre procurava por mais, todo o prazer me era pouco e todas as infelicidades bem vindas. Hoje vejo que me sinto feliz com pouco, que tenho tudo o que quero, mas que continuo procurando todo dia por mais e mais, as infelicidades não chegam até mim, e as pequenas coisas me trazem prazer. Seja ficar sozinha dentro de meu quarto olhando a chuva escorrer na janela, ou sentar no banquinho na frente de casa e abraçar você com uma vontade que nunca tive antes. Sinto que tenho necessidade de tirar os pés do chão de vez em quando, de olhar de frente para o que não conheço e cumprimentar – muito prazer! Eu até quero a vertigem, mas ainda sonho com uma vida mais calma, sem tantas máscaras diárias e sofrimentos desnecessários. É melhor atirar-se a luta em busca de dias melhores, mesmo correndo o risco de perder tudo, do que permanecer estático, como os pobres de espírito, que não lutam, mas também não vencem, que não conhecem a dor da derrota, nem a glória de ressurgir dos escombros. Esses pobres de espírito, ao final de sua jornada na terra, não agradecem a Deus por terem vivido, mas desculpam-se perante Ele, por terem apenas passado pela vida. Eu agradeço a todo momento por ter as pessoas que estão comigo agora, e por terem sumido da minha vida as pessoas que não me fariam mal, mas que me fariam perder as pernas e que não pudesse mais continuar a caminhar como eu sempre quis. Sempre quis ter alguém e ser livre, ser eu mesma, sorrir e chorar no momento que eu quisesse, falar besteiras e saber ser séria. E que dizer agora? Você vem, pinta e borda comigo, me revista, me excita... o seu cheiro impregnou em mim, isso sim. Vai... do jeito que imagino, me tira essa vergonha, me mostre, me exponha. Nossos abraços. Talvez seja apenas isso. O aconchego de há pouco. Deixa eu causar inveja? Deixa eu causar remorsos? Nos seus, nos meus, nos nossos... O sol cedeu lugar à chuva. Tudo cinza e frio. Não podia estar melhor! Agora vou me embrulhar no quarto nesse dia de chuva e certo frio. Fazer cabaninha com o edredom e ouvir músicas antigas. Sozinha, mas, dentro do possível, feliz, porque eu sei que logo mais você vai me ligar, ou me mandar uma mensagem de boa noite, e é por esse e outros vários motivos que você coloca um sorriso na minha cara, e que eu agradeço o tempo todo por você ter aparecido. E mesmo muitas vezes me sentindo pra baixo, eu sei que a tua mão estará na minha, e isso me faz ter força pra levantar e ficar por cima, ao teu lado. Sempre. E todo mundo merece uma chance de recomeçar de vez em quando, eu tive a minha, recomeçei e quero continuar assim, crescendo cada vez mais, com essa força que a cada dia me transborda, nunca seca! Voltando a caixa, depois de deixar o ursinho de lado e teu cheiro ter impregnado em mim, pego fotos nossas e coloco por cima do meu passado, agora sempre que abro a velha caixa, estamos ali colados, flagrados em harmonia, loucos para que a vida não separe, para que o gosto nunca mude ou a vontade de um pelo outro sempre prevaleça. Nos conhecemos desde quando? Desde sempre? Desde o começo? Parece que sim, e nunca havíamos percebido, mas talvez se você tivesse me aparecido antes, não estaríamos tão bem agora. Deus por mais que demore e por mais que as vezes pareça não escutar, Ele sabe o que faz.
"E a pergunta que me vem, em tom de agradecimento, é: por que será que você aconteceu na minha vida? Não espero respostas, mas deixo-me aos seu cuidados."
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