sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Gavetas velhas
As coisas estão inertes no meu quarto há quase duas semanas. Vou adiando quanto puder. Eu não quero tocá-las, desfazê-las. Quero fugir, evitar o fato. A verdade é que voltei e não sei mais o significado. A vida anda muito bem sem mim. Talvez no começo, as paredes tenham percebido um estranho silêncio. Agora vejo que minha ausência é sólida e minha presença, quase incômoda. O mais engraçado é que tudo continua exatamente igual ao que eu deixei. Mas não há como ignorar- eu deixei. Então, tenho medo de desfazer as caixas e não encontrar as roupas certas para os sapatos encaixotados há tempos. Também vou permanecer inerte na porta do quarto, não vou entrar, vou deixar meus pés se acostumarem à idéia de antigos sapatos.
“Que Deus tenha piedade das gavetas velhas, cheias de coisas novas que ali se amontoam. Que Deus tenha piedade das mãos que amontoam coisas em gavetas velhas. Coisas que envelhecem com o tempo e repousam conformadas em lugares que não são seus, sejam recebidas no reino dos céus. Que toda a misericórdia e o perdão sejam dadas às mentes distraídas que encerram coisas em gavetas escuras, roubando-lhes o direito da existência plena em seu devido lugar. Que Deus tenha piedade daqueles que se encerram como coisas em gavetas e passam a vida se poupando do envelhecimento inevitável. Da morte inevitável, da vida.”
Se abrir a porta do guarda-roupa, vejo tudo revirado. Já não encontro as roupas que eu queria, e não encontro nada limpo. É como se tivesse passado um furacão por meu quarto. Eu sempre estive ali, entrava e saia. Mas a ausência de mim mesma, fez meu próprio quarto sentir falta de mim. Ele se revirava e não implorava por arrumação. E esse foi o primeiro tempo em que não me encontrei na minha própria bagunça. Eu gosto do meu quarto, do meu desarrumado. Mas dessa vez o limite já estava bem lá trás, já tinha lhe dado as costas. Essa minha mania de mudar de humor a cada minuto, me incomoda há dezesseis anos. Bom, na verdade eu sei que faz dezesseis anos que isso acontece, mas só agora comecei a me dar conta, o quanto isso me incomoda. Cada reviravolta, é uma bagunça pro meu quarto. O problema é que se você prestar bem atenção, o teu quarto é a tua vida, é a tua casa, é o teu corpo. Não gosto de pensar que enquanto a porta está fechada está tudo uma maravilha, mas quando ela se abre cai tudo. Não quero isso pra minha vida. Pensei em deixar tudo inerte, mas eu não quero minha vida inerte, quero mudança, eu preciso.
Há em meu quarto coisas que nunca estarão em outros quartos. Da mesma maneira que há em mim coisas que nunca estarão em outras pessoas. Tudo o que couber nele eu guardo, coisas boas ou ruins, inutilidades ou coisas necessárias. Parece bagunçado, anda sempre cheio de coisas, e sempre necessita de mudança. Quando resolvo limpar tudo, e jogar todos os papéis que estão amontoados nas gavetas pra fora, parece que meu corpo limpa também. Da mesma maneira que sinto a necessidade de limpar e mudar meu quarto semanalmente, sinto que devo fazer isso em mim. Da mesma maneira que tenho vontade de mudar pro quarto ao lado, tenho vontade de sumir daqui. Mas ai eu lembro que minhas coisas, boas e ruins do quarto, as inúteis e as necessárias, serão muitas pra mudar de quarto pra quarto, e todas aquelas colagens nas paredes? Aquilo tudo sou eu, não tenho como deixar para trás, pelo menos não agora, pois AINDA fazem parte de mim. Assim como quando tenho vontade de ir embora, de sumir. Lembro que tenho pessoas que precisa de mim, e que preciso delas. Lembro que tenho as coisas boas da minha vida, como as ruins ainda pra resolver. Não adianta sair de um lugar para o outro, se você não levar tudo com você, ou se REALMENTE não descartar tudo o que já não lhe é mais válido. Eu me sinto tão bem dentro do meu quarto, é meu lugar secreto. Mas quando eu sinto que esse lugar secreto ta sujo, que dentro das gavetas tem coisas que precisam ser jogadas fora, e que cheira mal, eu começo a ficar mal também. Me agonia ficar dentro daquele quarto, da mesma maneira que me agonia ficar sozinha, que me insatisfaz entrar pra dentro de mim mesma, porque ta sujo, porque tem coisas que precisam ser resolvidas. Novamente pensei em não tocar no meu quarto, não entrar, trancar a porta, deixá-lo sujo. Mas aonde eu vou dormir? E quando eu precisar ficar sozinha? Ta na hora de limpar meu quarto, ta na hora de mudar minha vida. Acho que é final do ano, e eu cansei de ter sido inútil esse ano inteiro. É necessidade de obter independência, de colocar os pés no chão, mas continuar com a cabeça nas nuvens. Porque as nuvens elas me levam pra longe. Assim como a lua, como o mar, como a noite. Assim também como a coruja que vê no escuro eu preciso começar a enxergar também, porque afinal, ta tudo escuro, e é assim que se começa uma vida nova no escuro. É como o útero da mãe, primeiro há o escuro, logo vem a claridade e o choro, porque ai você entende, que aquele aconchego do escuro acabou, e que há uma luz cegando seus olhos, e você sabe que de qualquer maneira há um mundo pra você enfrentar, de novo e de novo. É um ciclo, não se tem como fugir das coisas, elas sempre aparecem pra você aonde você estiver. A vida sempre vai te dar desafios, e você tem que vencê-los, por mais doloridos que sejam. E como eu disse ontem “você nunca vai saber como é ser limpo, se um dia não cair totalmente na merda.” E quanto a frase que eu sempre digo “as conseqüências são de menos quando você tem o que quer”, andei dando uma mudada...
“as conseqüências são as de menos, quando você tem o que quer, mas jamais deixe de pensar nelas, talvez isso não seja realmente aquilo que você realmente quer.”
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É a nossa bagunça interna que nos da coragem de organizar a externa. Porque sim, o seu externo está refletindo apenas o que está dentro de você Sarinha. :P
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